Parabéns por ter vivido mais um ano, não importa como foi.
Parabéns por ser essa pessoa normal, que está sempre aqui no seu aniversário, que está sempre fazendo bolo no seu aniversário, que está sempre sorriso e afago, agradecendo a nós que também somos pessoas normais, no dia de seu aniversário.
Nossa sociedade agradece o que ignora. Transpomos nossa fase de superstição devocional, de agradecer aos céus por uma boa chuva ou por um filho forte. A ciência porém nos deu o direito de reclamar e amaldiçoar, o tempo, as doenças, nossa submissão. E hoje agradecemos e não explicamos: "como diabo continuamos vivendo assim?".
Quanto melhor os velhos de verdade, que têm uma razão particularmente sinistra para comemorar cada 365 luas de vida, ou as crianças, para quem o tempo é uma piada sem graça e é legal, seja lá por que motivo, receber um monte de coisa colorida para brincar em um dia do ano. Quanto melhor os que lutam, os que matam, os entrincheirados de Ypres. Mas a mim? A nós?
Somos uma sociedade de sobrevivência, e não de vivência. Para nós a vida é algo muito barato e fácil, sabemos onde tem comida quando temos fome, onde tem roupas quando temos frio. Não iremos morrer. Não iremos viver também: pelo menos não aquilo que toda a natureza define, gritando com todas as forças, como vida. Um aniversário é um ritual enfadonho e forçado, um constrangimento social necessário para nos lembrar que estamos (temporariamente) vivos, embora muitos se esqueçam. Cada canto de "parabéns" é um uivo entristecido chacoalhado com um bater de palmas esquelético, ridículo. Sabemos que estaremos vivos amanhã. Temos conforto, comida, todo o tédio da modernidade. Comemorar algo que acontece automaticamente é especialmente estúpido, e sabemos disso. Não podemos nos explicar, nos desculpar por essa condição sub-humana da vida certa, do dia igual, mas sabemos o que se passa.