Oh cara, como estou de saco cheio das aulas e das malditas Relações Internacionais. Como fico aborrecido com duas horas de trânsito diário, com as desgraçadas oito horas que sugam da alma todo santificado sábado e domingo. Filho da puta! As pessoas, todas as cocotas medianas e infinitos assuntos, que chatice!
Estou como um presidiário a algumas semanas da liberdade condicional. Estou, digo... o que era um sussurro noturno, o pequeno diabrete que assola a nós, os fracos de espírito, os fodidos, os desgarrados de tudo, ah! Agora é um Uivo, um chamado triste, monofônico e timbrado como um Uivo, doído e fatal como um Uivo, delator e irresponsável como um Uivo, nada é mais a tôa.
Não assino mais nada, meu nome é de um fantasma que, já morto, ainda se esquece trôpego, bebe e sorri no bar, sempre de partida. Sou um homem de partida, um homem deixado.
Sou um homem prestes.
Que estranha não-vida essa agora, que cadência intolerante a que eu submeto o mundo à minha volta: não me estranha eu estar sozinho. Quem quer dividir a vida com o homem-logaritmo, quem quer o que eu tenho a oferecer? Sei de muitas coisas, e esse é o problema de não ser mais vazio, de estar eternamente preenchido de algo que nem se sabe o que é, mas algo que é líquido; ou som, ou nome, vapor celeste. Vai se descobrir, agora? A mim? Descobrir é perder, baby.
Que julgo genuinamente dantesco, o de ser tão simples. Deus os livre.
Sozinho não posso
carregar um piano
e menos ainda um cofre-forte.
Como poderia então
retomar de ti meu coração
e carregá-lo de volta?
Os banqueiros dizem com razão:
"Quando nos faltam bolsos,
nós que somos muitíssimo ricos,
guardamos o dinheiro no banco".
Em ti
depositei meu amor,
tesouro encerrado em caixa de ferro,
e ando por aí
como um Creso contente.
É natural, pois,
quando me dá vontade,
que eu retire um sorriso,
a metade de um sorriso
ou menos até
e indo com as donas
eu gaste depois da meia-noite
uns quantos rublos de lirismo à toa.
(Maiakovski)
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Deus me livre amar uma pessoa como eu. Deus me livre me conhecer, mesmo que em uma esquina escura, chupando sorvete de flocos. Quero mais é que me prendam. 1:43 AM
De certa forma, acabou da mesma forma que começou: com um suspiro, sem estribilhos ou trompetes.
Depois que a gente esqueceu o que queria dizer primavera e o que havia de ser feito no jardim, pra que se preocupar mais?
Como alguém se descobre como se é, lá fora, na rua? Eu sei que não sei disso; se você me contar sobre mim e sobre meus dias e minhas noites ouvirei atento como ouvia meu avô contar suas histórias da Itália. E ficarei encantado.
Então se é narciso ao querer descobrir-se na boca dos outros e das outras. E esqueço constantemente, e acho maravilhoso esquecer. Gostaria de esquecer todos os dias um pouco de tudo, e terminar meus dias balbuciando o nome de pássaros que cantaram em outro tempo.
Depois de 15 horas de trabalho quase ininterrupto (das 10 da manhã de hoje até agora, 1 da manhã) terminei minha iniciação científica. IC é uma espécie de mini-mestrado que você faz para ver se é isso mesmo que você quer na vida, escrever e fazer coisas [sic] acadêmicas.
E eu terminei a minha agora, depois de um ano trabalhando nela. Isto é, terminei se meu professor não inventar uma alteração de última hora.
É isso. É o fim de uma era. Chega de passar dias ensolarados escrevendo sobre uma garota em Luxemburgo. Daqui pra frente é só pedalar e pedalar, baby.
Minha primeira tatuagem nasceu de um ano de reflexão sobre minha vida. Escrevi "Life Goes On..." assim mesmo, com reticências, nas costas. Tinha 18 anos e uma história bem adolescente de decepções e tentativas de suicídio pra contar nessas três palavras. A vida continuou, e para mim escrever aquilo nas costas foi como selar um período da minha vida, uma fase de navalhas e violência que pouca gente conheceu. Graças a deus.
Daí eu fiz essa tatuagem no braço, e apesar dela estar amadurecendo na minha cabeça por mais ou menos um ano, não consegui ainda explicar em palavras a simbologia dela. Uma tatuagem como essa, com dois ases (paus & espadas) sobre uma faixa quadriculada e com a palavra "Chance" escrita, não pode ser apenas estética. No canto, quase escondido, uma seqüência de letras sobe pelo meu ombro. MDCCLXX. É um número, 1770, o exato verso quando Fausto explica seu acordo com Mefistófeles. Dali para frente as escolhas que o velho vai ter vão depender dessa aposta que ele faz com o diabo, e das perspectivas que ele terá da vida a partir disso. "Já te disse Mefisto, não quero alegrias vulgares...". Acho apropriado que essa parte fundamental da tatuagem fique levemente escondida no canto, como uma legenda que explica o quadro.
Então eu pensei que ética e estética não são palavras estanque. Que se eu marco em meu corpo com essa violência idéias tão fortes é porque, afinal, eu preciso do elemento escuro que une essas duas coisas. Porque eu tenho muitas coisas a dizer, e essencialmente, eu tenho muitas coisas a dizer para mim. Para me lembrar de quem eu sou, sabendo que quem eu sou é uma idéia construída aleatoriamente, como uma carta tirada de um baralho. E cheguei em casa vindo do caminho da PUC com essa idéia na cabeça e tomei um susto quando entrei no meu quarto e vi pôsteres do Elvis e do Roberto Carlos. Que maluquice eu me tornei? Fiquei parado observando e conclui que se passaram 5 anos desde que "a vida continuou" naquela tarde fria de 2001 quando eu fui com Anninha me espetar no estúdio de tatuagem perto de casa. Cinco longos anos. "Filho da puta! Como eu cresci!"
...
"A vida continua" é uma aposta. Não sei que merda vai acontecer amanhã, e deus sabe que cada maldito ano que passa eu me torno uma pessoa diferente da anterior. Do loser ao pulp, é como se estivesse tirando essas cartas mesmo. Não importa o que vai sair, desde que eu as mantenha vindo, desde que eu brinque com as regras do jogo, desde que eu brinque acima de tudo. O xadrez, além de constância e ritmo estético, é um jogo com infinitas possibilidades, ainda que tenha regras muito simples. E os ases são o agora, porque essa tatuagem representa o agora - não o caso de ter tirado a sorte grande, mas de ter chances fodas. Afinal, o mal jogador perde mesmo com um par de ases na mão.
A palavra "chance" vem do francês antigo "chanceaux", que por sua vez vem do latim "cadentia", provavelmente através do vernáculo borgonhês "candeaux". O significado original em latim foi mantido na palavra portuguesa "cadência", que significa o tempo que marca o passo de alguma ação. No francês antigo "chanceaux" designava a forma como os dados caiam em um jogo popular na Europa Ocidental. Daí para ligar "cadência" à "sorte" ou "oportunidade" foi um pulo. A força da palavra a manteve inalterada em diversos idiomas (português, inglês, francês, alemão) e provocou ligeiras alterações em outros ("szansza" em polonês, "chans" em sueco, ou mesmo "inchlis" em árabe, que a usa para designar oportunidade apenas).
Novamente, é apropriado que uma palavra que tem origem na cadência do movimento de algo seja tatuada sobre minhas cartas. Acho que não posso, ou talvez nem precise, explicar mais do que isso.