Estava saindo da Igreja Matriz quando uma coreana bonitinha me chamou para um canto com um papel na mão. Lembrei-me do pedido do começo do ano e estava saindo da igreja - eu que não sou nem um pouco religioso, mas um milagre em uma vida inteira é um bom recorde!
Então eu fui e ela começou a me falar frases que lia em um papel na mão, misturando coreano e português com um sorriso nínfico. Era algo do tipo "Você batizado verdadeira igleja?" e "Conhece JerusalemEspíritoMãeCelestial!" e me pegava na mão, e meus pensamentos não eram nem um pouco celestiais. Queria me batizar com uma água amarela que dizia ter trazido da "verdaderaigleja" em Seul e eu logo vi que aquilo ali não ia dar certo, e parti.
Que é nos seus braços o celeste enleio?
Ao calor doce de seu seio,
Não lhe verei sempre a aflição?
Não sou eu o sem lar, a alma erradia e brava,
O monstro sem descanso e ofício,
Que, em ávido furor, se arroja como lava,
De pedra em pedra, para o precipício?
E de lado ela, com sentidos infantis,
Na humilde choça sobre o prado alpino,
A atuar, doméstica e feliz,
No âmbito de seu mundo pequenino.
E a mim, pária em degredo,
Não bastou que agarrasse
Penhascos e rochedo,
E que os despedaçasse?
Fui arruiná-la, a ela, à sua paz!
Tu, esta vítima exigiste, Satanás!
À ardente espera, põe, demônio, fim!
O que há de ser, logo aconteça!
Possa ruir seu destino sobre mim,
E que comigo ela pereça!
(verso 3.550, Wald und Höhle) -------------------------------
Dada uma hora uma coisa engraçada aconteceu: uma chuva forte começou a cair, daquelas de gotas grandes. Chove há três dias nessa cidade, mas hoje foi peculiar porque não havia uma única nuvem no céu. Estava azul e ensolarado, e só Deus sabia de onde vinha aquela chuva.
No calçadão as pessoas todas se abrigaram e olharam para cima. Alguns paranaenses de caras apertadas teimaram em ficar onde estavam, quase incrédulos a olhar para o céu. Fiquei rindo daquela cena.
Daí começou a molhar meu café e minhas falhas na cabeça e meu On the Road novo e minha blusa de lã velha e eram cinco horas e meu irmão estaria me esperando logo mais com alguma coisa gostosa no forno e os cães iam se molhar me esperando no portão e estava frio como o diabo e eu estava aborrecido sem uma puta de uma resolução da minha vida e me levantei e saí andando. Andando e rindo daquela chuva safada.
Hoje estava lendo um artigo do Teixeira Coelho na Folha que me chamou a atenção para um fato estúpido e absolutamente essencial: São Paulo não tem porto. Sei disso, ou melhor, sei que isso é importante quando fui à Santos com uns 7 anos de idade e passei boas horas observando navios irem e virem, e imaginar o mundo de 7 anos de idade, de lugares absurdos para onde aqueles navios iam. Meu pai me levou para um destróier e eu tenho uma foto abraçando um canhão de artilharia no colo de um marinheiro. Eu vestia uma boina branca que hoje me arrancaria lágrimas, se eu a encontrasse. Puta merda.
Enfim, São Paulo não tem porto.
Mas tem, e teve, e quase todo mundo teve, memórias com o pai ou avô ou que seja no Café do Aeroporto, imaginando a mesmíssima coisa com os aviões chegando e partindo, e deixando a cabeça subir e descer junto com eles, e pensando e acenando tchaus impossíveis para as pessoas de dentro dos aviões. Impossíveis. Naquela época eu achava estranho um mundo tão grande e a gente sempre ali, a olhar os aviões subirem e descerem. Achava besta ficar ali, quando haviam de fato lugares absurdos para onde eles iam. Até cheguei a tirar minha foto análoga à do destróier, no cockpit de um Fokker 100, abraçado ao comandante como se fosse um velho amigo. Ou um herói, e era. Que bobagem nostálgica.
E pensei que toda cidade deveria ter um porto, e todo porto deveria ser repleto de crianças bobonas dando tchaus impossíveis. E foi aí que eu fiquei realmente triste com toda essa merda em Congonhas.
Com o mundo grande e perigoso e complexo do jeito que tá, a moda agora é casar-se e ter filhos e ter um emprego estável aos 25 e limpar o chão da sala.
Modalidade: Pentatlo Moderno Consiste em realizar, como o nome diz, cinco esportes em um dia. Primeiro o atleta compete em salvas de tiro a 10 metros de um alvo de 17 centímetros.
Depois corre para uma prova de esgrima de "todos contra todos" (??) com espada longa.
Após os combates ele se atira ao corpo de água mais próximo onde nada 200 metros livre.
Saindo da água pega um cavalo e salta 12 obstáculos com o bichão entre eles um duplo e um triplo.
Ao final, abandona o cavalo e simplesmente sai correndo por uns 3,000 metros de "cross-country" para a linha de chegada.
Ou seja, é a Guerra de Criméia transformado em esporte.
Enfim terminei o Fausto de Goethe. É belíssimo e poesia além de qualquer coisa que eu já tinha lido, mesmo em tradução. Chegava a me identificar com o Dr. Fausto - entediado, apaixonado e trágico. Mas o final do livro é por demais perturbador.
Ultimamente tenho me contentado em ouvir Velvet e Dylan e ficar deitado curtindo algum efeito de alguma substância na cama. Qualquer uma. Ou em um bar, encontrar gente parcialmente conhecida e conversar sobre futebol e sobre a vida. Ao fim da noite eu volto dançando pelas ruas de São Caetano até minha casa e me jogo feliz no sofá. Nem lembro o nome das pessoas depois. Assim passo meus dias, tão vazios quanto a vida deve ser, acho.
Domingo foi exatamente o meio do ano. 1 de Julho, 184º dia do ano, 26ª semana. Escrevi na minha agenda: "Daqui pra frente é downhill". Quer dizer, é o meio do ano, o meio dos planos, o meio da meta de quilometragem que eu me atribui, o meio da iniciação científica que eu faço, meio bom, meio mal, meios amigos, meios amores e meias verdades. Um ser incompleto eu me tornei.
E fiquei hoje a ler Goethe e cantarolar Sweet Jane, como se eu pudesse juntar Sturm und Drang e proto-punk, e acho que eu posso. Ainda pensei em Fausto e como ele era medíocre, e como eu sou medíocre, e como ele julgava tudo e pensava muitas coisas, e como eu penso e penso e penso. Um ser horroroso, este que eu me tornei. Ou terrível. E pensei no terrorismo e em todas aquelas mamas libanesas gritando, e aí minha mente se perdeu e concluí que a Noite de Valpúrgis vai ter que ficar pra outro dia.