Eu lhe sorri como se dizendo: "Olha, estamos aí, temos que nos agüentar de qualquer maneira". E ele me olhou sério, como se dizendo: "Que besteira". Então ele bateu na minha perna duas vezes, e na segunda nossas brigas já estavam reconciliadas. Em um milionésimo de segundo ele me olhou de volta e foi como molhar minha horta na escola. Vi aquela cara enrugada que era tão minha que me dá até medo de lembrar, tive certeza de como ficaria quando, e se, envelhecesse. Ficaria como ele. Na sala era só silêncio.
Ele pegou uma Antarctica e abriu, aquele PLEC gostoso de latinha estourando. E foi como se apostasse, e todos nós apostamos. Gosto de quem aposta. Fiquei a olhar de novo aquela cara babada de cerveja, e olhei para a foto dele aos 23 anos em frente à fábrica, um sorriso apertado, as mãos sujas de graxa e o colarinho azul azul. E escrevi uma tese na minha cabeça sobre nossa distância, ele, um operário que estudou até a 5ª série, casou-se novo, construiu família, trocava de carro todo ano, tinha casa própria. E eu. E me perdi naquele rosto em preto e branco, em toda a fisionomia idêntica a mim, em todo sangue sujo de siciliano migrante, nosso avô comum. Que herança!
E ele me perguntou, falando pela primeira vez em uma hora e vinte e dois minutos: "Você viu o jogo do Corinthians contra o Barueri?"
E eu tive que me segurar (meu deus, como me segurei) pra não me desabar a chorar ali na frente daquele velho.
Segunda, 5: Nenhuma produção. Fui até a biblioteca ler Chomsky, Huntington e outros centúrias que acompanham minha via crucis. Acabei lendo Thoreau e Emerson, este último pela primeira vez. A relevância das palavras é uma coisa escabrosa. (Perdendo a fé na ciência).
Sexta, 9: Ia escrever, liguei o computador e abri a pasta C:/Meus Documentos/Trabalhos/IC/Amia.doc. Quis vomitar. Acabei indo jogar um joguinho.
Terça, 13: Li coisas tão variadas quanto o horóscopo do dia, excertos de Deleuze e Emerson. Me empolguei pra escrever, mas só depois de preparar um café novo que eu tinha comprado. Quando comecei a bater os dedos nas teclas já eram 5 horas, hora de sair pra PUC. Um inferno.
Quinta, 15: Ia pesquisar a imigração judaica na Argentina e me perdi pela Wikipédia. Fui parar em Tocqueville. Não escrevi nada.
Terça, 20: Sou incentivado a submeter meu trabalho a pessoas que certamente não o apreciarão. Considero-o tão boba esta iniciação que temo ser muito papo por nada. Me sinto tão ignorante: como escrever qualquer coisa? Ando pastoril, Caeirista. E isso é ruim.
Quarta, 21: Ainda nada. A mão teima em não apertar as teclas. Fiquei a ouvir a chuva e pensar. Ando meio deprimido. Sem produção hoje.
Domingo, 25: No momento estou empolgadíssimo para escrever 3000 páginas sobre o transcedentalismo norte-americano oitocentista e zero páginas sobre terrorismo. Sem produção.
"Como pude concluir, eu voltei da África com a noção patética que nossa presente maneira de fazer guerra é muito mais bárbara do que a dos próprios árabes. Hoje em dia, eles representam a civilização, nós não. Esta maneira de fazer guerra me parece tão estúpida quanto é cruel. Só pode ser concebida da mente de um soldado estúpido e brutal. De fato, é inútil derrubar os turcos apenas para reproduzirmos o que o mundo mais odiou neles. Isto, mesmo pensando nos interesses da nação, é mais danoso do que útil; como um outro oficial me disse, se nosso objetivo é substituir os turcos, de fato estamos em uma posição mais inferior que eles: bárbaros por bárbaros, os turcos sempre serão melhores, pois eles são bárbaros muçulmanos."
Tem tanta coisa mudando de tantos jeitos diferentes que eu nem ando conseguindo escrever aqui.
Isso e meu anti-ego me sumindo, uma coisa. Precisa de ver.
**Em tempo, estou devendo para pessoas diversas, nesta ordem: -Uma carta para um amorzinho de menina;
-Um abraço apertado com os olhos cheios de lágrima;
-Um livro;
-Um post decente neste blog;
-Algumas músicas;
-"Produção científica";
-Um mate cevado na sala;
d-_-b: The Little Ones - Oh, MJ! Dance On! 4:10 PM