Hoje peguei minha mãe assistindo "Cidade dos Anjos", aquela adaptação babaca da obra-prima do Wim Wenders com o Nicholas Cage.
Passei correndo e gritei "Ela morre no final!" e sai pela porta, conseguindo desviar a tempo de um sapato de salto que voou na minha direção, acompanhado de toda sorte de xingamento.
É como se um milhão de vozes falassem com você em um milhão de línguas - e você as entendesse todas. É como se no escuro, centenas de rostos aparecessem e flutuassem gentilmente pelo quarto enquanto você acompanha com os olhos cada um desaparecer em um canto para dar lugar a outro. É como se um zumbido distante fosse mudando de freqüência (é real?) e ganhando notas até finalmente se tornar uma música que você não quer ouvir de uma banda que pouco importa. Tocando no repeat.
É como se seu corpo quisesse se levantar e correr a São Silvestre enquanto transa com Sylvia Saint - e quando você se levanta mal consegue andar. É como se "acordado" e "dormindo" não pudessem mais ser separados. É como se lembrar de ligar para alguém três dias depois da hora marcada, às 03:28 de um sábado. É como ouvir o rádio relógio (ou não ouvir) e levantar para desligá-lo e continuar (ou começar) a ouvi-lo. E não se lembrar disso.
É como bater o carro e se esforçar para acordar, achando que está sonhando. É como dançar balé deitado na cama, rindo. É como ficar suado em um dia frio. Suado de nervoso. Ouvir alguém chamar seu nome e acordar sozinho. É como acordar e dormir, acordar e dormir, acordar e dormir.
É como heroína. É como dormir os 15 minutos sagrados entre 05:45 e 06:00 e ter um sonho de quatro horas. É como acordar com fome no meio da noite, sem querer comer. É como babar e murmurar acordado, saber que se está babando e murmurando, e não fazer nada quanto a isso. É como ter um sono enlouquecedor, e simplesmente não dormir. É como enlouquecer.