Hoje passei o dia ajudando meu pai (50 anos, desquitado, semi-careca) a conseguir some pussy. O velho comprou um computador e se inscreveu em todos os sites de relacionamento bizarros que aparecem em pop-up por aí. É tenebroso: há todo um submundo de mulheres de 50 anos, desquitadas, semi-lúcidas a procura de seus contra-partes masculinos. Disseminam poemas de Oswald de Andrade em Caps Lock pela web como se estivessem a pescar, e eu nem preciso falar quem mordeu a isca. O dia hoje foi dedicado à exploração de minhas parcas habilidades de fotógrafo afim de montar um álbum de respeito para o garanhão.
Pelo menos ele está vivendo. Sai todo dia com uma vovó diferente, vai nessas "boites dançantes" e se joga na vida louca de bandas com ternos brancos cantando Johnny Mathis, perfume forte e barato, whisky 8 anos e camisa de linho preto da Dorinho's. Viagra também.
Não consigo deixar de sentir um certo carinho por isso tudo. É um lado que só os filhos de pais divorciados podem acompanhar, e ao qual poucos conseguiram se acostumar, quiçá se envolver à lá filme de Sessão da Tarde com as gêmeas Olsen, "Procurando um Par para Papai". Mais, é uma relação sincera, de conselhos sexuais da época da Jovem Guarda e confidências tipicamente masculinas, do tipo que um babaca com visão romântica como eu espera ter com o pai. É forçado, difícil e um pouco sujo, mas acontece, e eu me sinto bem. No final, fico com um gosto amargo de "Meu deus do céu, não quero envelhecer".
A foto de cima não é de meu pai, embora eles sejam parecidos. É do Jack Nicholson no filme "About Schmidt". Filme bonito que me fez chorar por explorar exatamente esse libertarianismo pós-crise da meia idade que acomete principalmente os homens separados ou viúvos. E o Jack é foda demais, e me lembra meu pai.
Perto da meia-noite todos pegaram papel e disseram para escrever um pedido. Iria ser queimado em uma pequena fogueira, tipo uma simpatia.
Vi gente pedir paz mundial e passar na faculdade.
Bêbado, peguei a caneta e escrevi: SEXO COM UMA ORIENTAL.
Me disseram que era pra ser cinco pedidos. Não consegui computar, então entendi que eram cinco letras. Então escrevi "MUITO" antes da frase, e queimei.
Cansado com causa, e ele próprio a explica no fim de seu escrito: "Sou inteligente, eis tudo. Tenho visto muito e entendido tudo o que tenho visto". Estou cansado de mim, dos mesmos problemas, dos mesmos desafios. Estou cansado de desamaranhar as aflições, de vê-las enrolar-se sozinhas como caleidoscópios furta-cor automáticos, fazendo zunido e mudando em padrões sempre iguais de imagens circulares. Cansado da prosa, de construir f-r-a-s-e-s i-n-t-e-i-r-a-s e desconstruir as dos outros. Quero esse blog com poucas palavras, de novo. Me quero de poucas palavras, de novo.
Pessoa fez em Campos um erro calculado: não se trata de inteligência. Pessoa entendeu bem demais o turbilhão da tabacaria e fez em Campos um crente. Solitário mas crente, pessoa de fé, dessas que haviam tanto em outrora, a olhar as coisas e sorrir. (Estou cansado de não olhar as coisas e de não sorri-las). Fez um círculo protetor em volta de seu heterônimo, um escudo de mercúrio de onde o poeta via as intempéries seguro de sua capacidade de compreendê-las. Uma arquitetura impossível, an unparalleled balustrade, um jogo de arte que a mim tornou-se imponderável, quase como se tivesse esquecido as regras. Bem sabia ele que agüentava as porradas enquanto protegia seu futurista mal-grado. E foi sumindo Pessoa, e ficando Campos.
E sou eu cansado, cansado, e sumindo. Estou sumindo. E deixando um legado heteronômico, um quadro mal-feito que esconde diversões vulgares, um gurizinho insolente de pés no chão e camisa aberta, um moleque de riso besta numa redoma increscente. Que essa redoma estoure é o positivismo, a hora e a vez de nascer de novo, de cumprir o papel edípico às avessas, matando o filho antes que ele me mate: um papel suicida também. Pois o jogo é sobretudo fatal e a Alteridade é também a âncora que me impede de sumir de vez. O Outro é o ato de fé, a chance de me julgar enfim inteligente (e talvez bonito, que beleza é mais importante para quem pensa) e de apostar em all-in minha Identidade, talvez para ver se surge daí um Terceiro Dialético, um Frankenstein do corpo e da alma, que viva plenamente em implosão - e não em explosão - as contradições que me afligem.
Mas se sou ainda um suicida - e hoje, a poucos dias em 2007, tenho total consciência disso - tenho que colocar-me entre os que matam e destróem, entre os canalhas a afogar o moleque, a exterminar Campos, a cortar-lhe os pulsos. E sou um suicida experimentado, que viu que a corda no pescoço aperta e a vida pára, mas que abrir a torneira também seca a fonte. E disso não se fala, disso estou cansado. Estou cansado de sumir, do processo de sumir. Estou cansado de brincar.