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Deu que hoje o menino (eu, no caso) acordou e não conseguia mais falar.

Não podia conversar com seus amiguinhos, escrever seus trabalhos, relaxar com seus joguinhos. Não conseguiu baixar novas músicas, mixá-las, compartilhá-las, buy it, use it, break it, fix it, trash it, change it, melt - upgrade it. Não conseguiu amar odiar opinar, voar deitar surfar, abrir fechar navegar.


Estava (e estou) com tendinite no pulso. E demorei 52 minutos pra escrever esse post.


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Hoje estava ouvindo um cd dos Mutantes (Mutantes 1962, a saber) que meu computador escolheu aleatoriamente pra tocar. Ouvi inteiro, de Bat Macumba a Mário Fulô, a Premier Bonheur... Ouvi e ouvi, e pensei ao final, "Meu deus do céu, que bosta". E caí na real que Mutantes em geral é um monte de cocô com umas pérolas de coisas interessantes no meio. E eu não costumo e nem gosto de fuçar no cocô dos outros atrás de coisa interessante. Então imediatamente comecei a odiar todas aquelas pessoas que dizem que Mutantes é a melhor coisa do mundo, profundíssimo, musicalmente perfeito e tal. Todas umas completas imbecis. E me odiei também por colocar este álbum no Top 5 de rock nacional uma vez na minha vida.

PS.: É fato que a constatação calhou com a crítica de Renato Barros (esse sim meu herói) contra a Rita Lee, que eu li recentemente na Freakium. Mas é também porque ouvi o álbum inteiro, sóbrio, sem droga nenhuma no corpo pela primeira vez, e achei um lixo. A entrevista do Renato, muito foda, pode ser lida aqui: http://www.freakium.com/edicao8_renatobarros.htm.

PS2.: Qualquer dia posto meu Top 5. Qualquer dia sem tendinite.

PS3.: Dei um chute no patrão. O "patrão" no caso são os Senhores M.


20061124::



Meu blog não tem comentários de propósito, mas eu tenho que transcrever um que surgiu do orkut aqui:

Anna:
Achei seu último post desrespeitoso


(hihihihihih!!!)



Jesus thinks you're a jerk


20061117::



Netsucked

Pago bem a qualquer um que vier até aqui e destruir completamente meu computador.




d-_-b: Roberto Carlos - Não há dinheiro no mundo
20061114::




A vida dentro de um carro é uma aventura


O blog Apocalipse Motorizado ganhou esse fim de semana o prêmio Best of Blogs da Deutsche Welle como melhor blog em português do ano, pela escolha dos jurados. Não sei se dá pra entender o quanto isso é foda, principalmente em se tratando de um blog importantíssimo como o AM, que trata de ciclismo em São Paulo (esse câncer de asfalto) e até já produziu um vídeo sobre o tema, então eu decidi postar um texto deles aqui. O link para o AM tá aí em cima, e logo vai figurar entre meus binários.



Aventura no trânsito?
A maior parte das pessoas que compra carros gigantes costuma circular sozinha dentro deles. Poucos são os que têm necessidade de transportar cargas volumosas e menos ainda são os que utilizam os veículos em terrenos "off-road" ou em longas viagens.

Mesmo assim estes monstros urbanos ganham (ou melhor, desperdiçam) cada vez mais espaço nas ruas e nas mentes dos brasileiros. Poder e status são quesitos importantes, para não dizer fundamentais, na escolha de um veículo para circular na selva agressiva do trânsito.

Geralmente este tipo de carro é vendido como apologia ao espírito de Indiana Jones, uma ilusão de aventura na selva, uma possibilidade de desbravar a natureza e chegar aonde ninguém chegou.

O anúncio acima esclarece um pouco as coisas: "a vida na cidade é uma aventura". Não há pretensão de transportar o futuro consumidor à selva idílica ou ao topo da montanha, é para usar na cidade mesmo.

Aventura no trânsito de São Paulo? Só se for para ciclistas ou pedestres, arriscados a todo tipo de surpresas desagradáveis ou agressões por causa do uso excessivo e estúpido de veículos motorizados. Ou será que o anúncio sugere comportamento irresponsável e agressivo ao motorista urbano?

Todo motorista sabe que não há nada mais entediante do que dirigir um carro na cidade durante boa parte do dia: primeira, segunda, terceira, pisa no freio. Primeira, segunda, pisa no freio. Primeira, pisa no freio, buzina e xinga o motorista à frente. Repita cem vezes, sem olhar para o lado. Que baita aventura!


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d-_-b: Liverpool - Voando

20061112::




Hoje uma mulher estonteante me encarou no metrô. Me senti congelado. Não estava olhando para trás de mim, nem como aqueles que ficam com os olhos perdidos como um hamster, pensando pensando pensando. Estava olhando para mim. Mais do que olhando, estava fitando. Não sei qual a atualidade do verbo fitar por aí, mas era isso mesmo. Staring. Fiquei pensando "Meu deus do céu, uma Katherine Hepburn, uma Bettie Page está a olhar para mim".

E então me senti absolutamente solitário. Não naquele momento, naquele vagão que estava cheio de seis horas, mas em todos os outros que viriam, e nos que o precederam também. Uma solidão que me acompanharia pela infância, pelo café que tomei sozinho demais ontem, pela aula que terei amanhã. Pode ser tolice. A beleza humana é insuportavelmente fútil, construída com noções bobinhas de simetria e padrões culturais. Mas não era só isso. Era mais primal. Que diria eu ao meus amigos? "Bah, uma mulher inalcançável me fitou no metrô". Se eu tivesse a sorte de atravessar os primeiros minutos de deboche, poucos dariam conta ou importância para a beleza, que era de ser dar muita conta e importância. Que eles a vissem. Diriam: "é bonita" e só, e eu ficaria cá com as borboletas na cabeça a continuarem a me incomodar. Poderia eu mesmo ir falar com ela, oferecer chiclete ou moedas como fiz com a violinista em Paris, mas sei dessa mesma experiência que disso eu teria apenas uma encenação, teatrinho besta de algo que passou, maior. Como o mito da caverna, mais ou menos. Pensei talvez no sentimento incompartilhável, inenarrável, no fim da concessão que a linguagem fez aos nossos sentidos, como se dissesse "é meu filho, há palavras e imagens, e há mulheres e beleza". E há poetas, mas são quase todos muito virgens e muito tímidos para traduzirem qualquer sentimento desse sem se esporrarem todos. E há beleza nas artes, e nessa eu também me afogo sozinho, e há críticos e apreciadores e gente chata a todo tipo. Gente chata essa que lida com beleza como se fosse material de troca, material de linguagem. Não é, não é: não é. Você encontra a Vitória de Samotrácia prestes a decolar daquela escadaria no 3º andar do Louvre, e você não fala sobre ela, sobre o que se sente. Puta que pariu, precisa ser muito pequeno pra tentar falar da Vitória de Samotrácia, pelo menos quando você a viu pessoalmente.

Lembrei de uma história que li em um encarte de disco. Falava de um café em Boston onde uma velha senhora na calçada parava as pessoas para mostrar um dirigível que voava baixo sobre a cidade. "Wonderstruck". Nenhum transeunte dava muita atenção, alguns olhavam para o céu e continuavam a caminhar ocupados. Não é que não viam o dirigível. Só não tinham a mesma impressão que ela, a mesma mensagem. Wonderstruck. Ela finalmente desistiu de tentar chamar a atenção dos passantes e entrou no café sorrindo, onde desabafou com o autor da história: "eu tentei mostrar, mas ninguém ligou". O autor era Gary Smith, que mais tarde usaria o episódio como paródia do que aconteceu com os Pixies em 1987. Não se trata apenas de sensibilidade. Se trata da troca impossível, do ocaso da linguagem, de uma renda-trançada de razão que esmaga, escondida em um sorriso que parece que é só pra você, uma pincelada que só você viu, a praia absoluta.

E essa, meus caros, é a solidão da estética.


20061109::



Enquanto a elite se enfurece, eu na Paulista às 18:00 pensando...

20061108::



Diz-se que

Não te animas não, que esse excesso de liberdade vem de um profundo desapego à vida.
20061105::




20061103::




Tabaco


Não sou fumante. Bem, um pouco. Não qualquer tipo de fumante, mas um tipo especial de fumante. Na verdade, minha relação com o tabaco é de amor e ódio.

O tabaco tem uma simbologia e origem nativo-americana e oriental/africana. Aquela folhinha aromática sempre fascinou esses povos, e teve papel ritualístico em sociedades completamente diferentes. Entre os índios americanos, o cachimbo era fumado apenas em circunstâncias muito específicas. Os rolos de tabaco eram prensados e curados e o uso ritual cuidou para que o tabaco não se tornasse uma droga do dia-a-dia. Não existem relatos de índios viciados em tabaco, embora certamente a folha era bastante apreciada. A piteira do cachimbo da paz era longa e hoje acredita-se que muitos cancerígenos eram barrados pela forma de construção do cachimbo. Os índios não costumavam tragar costumazmente a fumaça aromática, mas a prendiam entre o nariz e a garganta; o pulmão cheio de fumaça trazia problemas para entoar os cânticos durante os rituais. Várias tribos africanas, especialmente do sul, também usavam a folha da mesma forma, porém com um design de cachimbo diferente: uma longa cabaça, com curvas acentuadas que tratavam de cuidar da umidade da folha e que tinham o mesmo efeito da longa piteira da América; a de tratar da fumaça quente que incomodava os fumantes e hoje sabe-se que é grande responsável pelo câncer de boca. É baseado no cachimbo zulu que os europeus montaram seus cachimbos de briar, uma raíz francesa que tem propriedades semelhantes à cabaça africana.

Os povos árabes montaram um sistema mais engenhoso. Importavam o tabaco do norte da África e do Iêmen e o prensavam cru em uma pequena bolota de alta concentração aromática. Freqüentemente misturavam a essa bolota de tabaco frutas secas e nozes. O resultado era tão intenso que um engenhoso sistema de filtragem hidráulica foi montada, com a característica "piteira" longa que cuidava da umidade, na forma de uma mangueira ligada a um recipiente de água que circulava a fumaça do tabaco. Às vezes pingava-se essências na água, o que dava desculpa para uma leve tragada por parte dos fumantes. A invenção ganhou nomes diferentes segundo a região: kufah na Síria e Líbano, hookah e shishah no Egito e Norte da África, e nakhlah no Levante e Turquia. No ocidente chegou a corruptela dessa última através dos franceses orientalistas, o naguilé. Era um ritual social, com um grupo de amigos (os sodhiqs) sentado em torno do aparato dividindo a mangueira em um sistema parecido com nossas "rodas" de maconha. O anfitrião do naguilé oferecia a primeira fumada a uma pessoa de prestígio, e ele próprio cuidava da boa qualidade de seu tabaco e da beleza estética de seu vaso de naguilé. A tradição é mantida até hoje, e os casos de câncer relacionados ao tabaco nos registros de países do Oriente Médio sempre foram muito baixos, graças ao uso controlado da folha e do sistema de filtragem longo.

Mas tínhamos que foder tudo. Hoje em dia tabaco é sinônimo de cigarro e a folha que já foi sagrada hoje é processada e quimicamente aditivada por mega-corporações como a Phillip-Morris. São vendidos em pacotinhos que se carregam nos bolsos e acendidos a qualquer hora, para desestressar, refletir a vida, "chafurdar em prazer". É explorado comercialmente e atribuído com a publicidade a imagens de glamour, hombridade, intelectualidade. Os fumantes de cigarro chupam seus papeizinhos avidamente muitas vezes ao dia, tragando amônia e glicerina como se cheirassem thinner, e penam para "largar" o cigarro como se fosse uma prisão. Do outro lado, governos e sociedade os reprimem e a cada dia cercam seu hábito, levando-o às beiras da proibição. A passagem do tabaco-ritual para o tabaco-fuga não só alienou aquele, como destruiu sua reputação de folha aromática a ser apreciada, artefato de cultura que, tal qual todas as drogas sociais, não pode ser separado da história humana. Foi a passagem do café para a Coca-Cola, da carne que resultou de um bom trabalho e boa caça para a carne-comercial de abatedouros industriais. Tabaco virou sinônimo, também, de coisa suja e cancerígena, de droga fácil, problema social.


Eu odeio cigarro. O cheiro me irrita, aquelas bitucas horrorosas enfeiam qualquer lugar, e as corporações por trás dos tubinhos têm um histórico de crueldade que me enoja. Porém gosto de tabaco. A folha é indissociável de círculos de companheiros, de tradições mais antigas do que nossos avôs, de artefatos de grande beleza como os cachimbos e os naguilés. Não odeio o tabaco, aprendi a apreciar sua qualidade de fazer pensar e de relaxar. Eu próprio aprendi a apreciar um bom cachimbo com amigos, em dias de chuva, enquanto leio um livro e escuto uma música. Não trago, porque tabaco não foi feito para ser chupado violentamente em seus pulmões, e sim apreendido delicadamente em nossos centros nervosos de sabor: a língua até o início da garganta e o nariz. Odeio sim, a cultura do tabaco, a exploração industrial, e as malditas bitucas. As malditas bitucas!


20061101::



1-2-3 CONTATO!

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