Hoje fui ao parque orar com Baudelaire e meu cachimbo. Em cada palavra, andorinha e lufada, ouvia gritar o Duellum do poeta francês: "Findou a juventude!"



Quanta ironia!
20060331::


Now if only I could fight the urge to walk away...
20060330::



Against Unworthy Praise

O HEART, be at peace, because
Nor knave nor dolt can break
What's not for their applause,
Being for a woman's sake.
Enough if the work has seemed,
So did she your strength renew,
A dream that a lion had dreamed
Till the wilderness cried aloud,
A secret between you two,
Between the proud and the proud.

What, still you would have their praise!
But here's a haughtier text,
The labyrinth of her days
That her own strangeness perplexed;
And how what her dreaming gave
Earned slander, ingratitude,
From self-same dolt and knave;
Aye, and worse wrong than these.
Yet she, singing upon her road,
Half lion, half child, is at peace

(William Butler Yeats)
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Desligue o computador e vá ler Yeats. Em inglês. Não tema o desafio, vale a pena.
20060329::



Manifesto da Estrada


1.Que esteja fundada portanto a Religião da Estrada, e que seus apóstolos sejam viajantes pobres sem qualquer ideologia que não seja a Religião da Estrada.

2.Fica proibida a discussão de qualquer assunto sério pertinente à Religião da Estrada. Se houver a necessidade, deve-se sempre usar metáforas. Fica proibida portanto, a clareza.

3.Esteja assegurado o direito à violência física, principalmente a violência grupal, praticada com armas brancas contundentes. Fica proibido portanto, o pacifismo.

4.A bandeira da Religião será um planisfério perfeito bordado de algodão e nylon, de dimensões secretas, porém certamente gigantesco.

5.Estão convidados os homens e as mulheres, se quiserem ser homens e mulheres. Está assegurada a sexualidade e a possibilidade de orgias e poligamia, assim como a homossexualidade. Estão proibidos os travestis e a afetação de gestos, assim como a promiscuidade e a pornografia. Sexo será eternamente tabu, e deliciosamente perverso.

6.Estão proibidas todas as drogas. Se alguma vigilância flagrar um membro usando qualquer tipo de droga, este estará passível de punição. Fica proibida também a vigilância, e incentiva-se a criação de sociedades secretas de uso de drogas. Estas devem guardar as técnicas e rituais para o uso das drogas.

7.Todos os seguidores do Manifesto devem ser missionários ou monges. Ficam proibidos portanto os padres e pastores. Os missionários devem usar bicicletas e os monges devem invadir as terras dos infiéis a fim de organizar festas.

8.Fica proibida a confecção de obras de arte. A estética será incentivada e os fetichismos destruídos. A menção de qualquer artista famoso, seja ele pintor, escultor ou escritor, será passível de punição.

9.Os seguidores do Manifesto comprometem-se desde já a falarem todas as línguas do mundo.

10.Fica proibida portanto a Religião da Estrada.
20060322::



É uma crise de identidade também, essa que me aflige. É a pós-orgia, quando tudo já foi libertado, a rebeldia adolescente conseguiu seu triunfo e não mais existem mais repressões: que há de se fazer agora? Não existem mais valores tradicionais, tudo é passível de ser questionado, desobedecido. Não existe mais projeto positivista, nenhuma perspectiva de salvação divina, e ao mesmo tempo uma total aversão à vida normal, ao caminho mais fácil do emprego/casa/filhos. Deprime qualquer um.

Mas então eu me encho de nostalgia. Por que eu era feliz naquela época? Mais do que isso, por que são felizes as pessoas que são felizes hoje em dia? Não desprezar uma possível alienação da tragédia humana, quase evidente nos belos sorrisos dos belos rostos que eu vejo, mas sim, meu sentimento é de uma curiosidade extrema. Surpreendo-me procurando pessoas da minha infância, amores antigos, namoricos e brigas, amigos de cantina. Cada resposta me empolga; são ideais de fato, mas ideais tão próximos da realidade que me distraio completamente. O simulacro dos olhos verdes e do riso fácil parece traduzir uma resposta para quem sou eu que me soa mais real do que o áspero cotidiano de verdades falíveis e questionamentos incansáveis. E é quando a simulação supera a realidade que entramos no terreno do hiper-real, do passado não só idealizado como regurgitado no presente em forma de sensações imediatas, super-intensas, super-rápidas. Um vento forte de cinismo levou as brumas konigsbergianas de Kant para a idiótica Disneylândia.

E que maneira mais cabal de realizar o seu passado do que, literalmente, fodê-lo? Entregar-se a uma utopia doce e pueril não é necessariamente uma armadilha para os incautos, pode muito bem ser uma tarefa consciente e terapêutica, científica até. Anotar os resultados de minhas sensações com uma menina idealizada, de beleza e problemas fáceis, me ensina muito. Mas o gosto de plástico que fica na boca incomoda, e eu vou dormir amaldiçoando minha velhice, minha doença de me questionar a cada instante, minha religião moribunda do pós-modernismo, que tudo vê e nada vê, que sorve dos simulacros com prazer intenso, sem nunca perder de vista a terra agora-idealizada do real. Sabor de plástico, último defeito manufaturado propositalmente pela simulação, a fim de separar-se(me) do real. Air-bag do choque inevitável, quando se quer aproximar-se do que é idealizado a fim de senti-lo. Como beber um litro de leite condensado (que é ironicamente leite, mas [sic] condensado).

Iludir-se é preciso. Mas as fronteiras do real e da simulação, do surreal e do virtual, nunca estiveram tão nulificadas. É a morte inédita, não pelo fim, mas pelo nascer, implosão dos meus processos clássicos de conhecer uma pessoa, apaixonar-se, adaptar sua vida a ela. O bombardeio não é mais somente do tédio (o inferno não são os outros, o inferno é o Mesmo) mas também da fantasia. O inferno pode muito bem ser a insistência, ou uma sucessão de sedutoras lolitas de baby doll conjuradas de passados hiper-reais. Porno-infância.

Mas não sei se já tive mais do mesmo, e é bom provável que ainda exista uma resposta entre as dobras da coxa de uma mulher, enquanto houverem hormônios e desejos carnais, embora seja perigoso procurar qualquer coisa de crença aí. Retornar ao passado perdido é possível, como já foi dito sobre as ilusões, e a Última Crença é isso mesmo, última. Mas o lugar do quem sou eu é móvel; muito mais o planisfério árido do real do que a teia hedonista do fantástico, do hiper-real. E é para lá que eu vou.


20060321::




Céus, tenho tanto a aprender.
20060320::



São os detalhes

Você ainda não se encontrou. O bom disso é que você pode encontrar outras pessoas, que podem ajudá-lo a encontrar você.

Quando estiver em um museu, deixe-me observar a fila de formigas que atravessa o hall central. Vou obter o que eu quiser de cada pessoa que eu conhecer e ninguém vai me impedir.

(acabei de ver Waking Life)

Não é bem um filme, é um sentimento. Richard Linklater dirigiu o filme e mandou junto com as cópias para os cinemas uma droga necessária para sua compreensão. Você pode tomar ou não. São os detalhes.


20060316::




Acontece que eu não sou o tirano. Não sou o horror do mundo. Não sou a opressão dos pais, não sou o maldito sistema educacional, a maldita faculdade que alguém se obriga a fazer, o maldito diploma, o maldito autoritarismo. Eu não sou, nem serei, alvo de constância depressiva, não serei um obstáculo momentâneo que deve ser terapeuticamente superado. Não serei substituído por um homem bom, não muito bonito, carinhoso, sexo aceitável, inteligente o suficiente, atencioso, insuportavelmente romântico, que trabalha, tem um carro, está prestes a terminar a faculdade, gosta de viajar, gosta de animais, não come carne vermelha, gosta de dar flores, gosta de MPB e rock suave (que você vai ensinar a ouvir), fica bobo quando se embriaga, é capaz de conversar sobre qualquer filósofo francês com certa desenvoltura, comunista não-militante, a um passo de morar sozinho em um apartamento hip em São Paulo, spiritual but not religious, fanaticamente monogâmico, disposto a ficar horas no telefone ouvindo seus problemas, e a pegar o carro e te levar para qualquer lugar, uma pessoa admirável, nobre, invejável em sua mediocridade simples. Infalível em seus pequenos defeitos entediantes; unha encravada, mau hálito, que seja.

Eu não sou superável. Não sou um obstáculo. Eu já passei por isso antes, e sei como é ser visto como sintoma de uma anomalia adolescente, uma lembrança dolorosa porém historicamente importante, alguém que se encontra casualmente, enquanto se anda de bicicleta em um domingo, e se apresenta constragedor o namorado. Não sou, não serei. E sei pouco o que fazer quanto a isso. Quer disse, sei, mas sei pouco. Pouco se pode fazer quanto a isso, mas pode-se fazer algo. Definitivamente, posso fazer algo.

Estou a um passo de cometer um ato monstruoso que os céus jamais perdoarão.


20060313::


o mundo é injusto.
todo o sistema de valores familiares são injustos.
o maldito capitalismo é injusto.

você eu não queria que fosse.


life sucks.



Pare de Fumar Fumando


Emagreça Comendo. Viaje o Mundo Sem Sair de Casa. Transe com Essa Loira Deliciosa a Partir de Seu Computador. Tenha Sua Vida na Palma da Mão. Tome Remédios e Ejacule Mais. Entenda o Orgasmo Feminino Sem Nunca Encostar em Uma Mulher. Fique Rico Sem Fazer Nada. Encontre o Amor de Sua Vida em Nosso Site. Tenha Seu Doutorado em Uma Semana. Dirija Esse Lindo Mercedes em Nosso Simulador.

Você Pode. Você Sabe que Pode.

basta clicar aqui.

d-_-b: Arcade Fire - Rebellion (Lies)
you know it's just a lie.

20060306::



Bom exercício de auto-conhecimento é segurar um pássaro na mão.

Hoje eu vi um, um pequeno pardal que não conseguia voar sei lá porque, na casa da minha vó. Aproximei-me com cuidado. Tive medo de machucá-lo, ou mesmo que ele me machucasse se tentasse voar sobre mim. Spielberg demonizou tubarões, Hitchcock os pássaros. Infelizmente para nós, os segundos são mais freqüentes que os primeiros.

Finalmente consegui agarrá-lo. De início senti um júbilo triunfante de ter aquele pequeno saquinho de penas quente e adorável em minhas mãos. Pulsava e alegrava como uma estrelinha da Mônica, e eu dava risinhos incontidos com a sensação maravilhosa de reter o animal. Em seguida passei a examiná-lo com admiração. Era leve e agradável ao tato, e dava pequenos piados preocupados. E as asas, o pequeno demônio tinha asas. Poderia voar para onde quisesse, jamais se preocuparia com pessoas chatas, lugares chatos, e todas as outras coisas chatas que caminham sobre a terra e nunca em nenhum momento irão jamais atazanar os céus.

Senti inveja. Seria interessantíssimo de fato cortar-lhe as asas; vê-lo caminhar para sempre ao meu lado, talvez em meu ombro, forçado ao pernaltismo terrestre até o fim da vida. Não, uma gaiola bastaria. Sim, eu poderia trancá-lo em uma gaiola e olhar-lhe quando quisesse, e cuidar dele, e ouvi-lo. O pequeno demônio seria dependente de mim para o resto da vida, e ao meu orgulho me fazia bem esta idéia. Mas ainda assim, era tão frágil...

Tive que me conter para não destrui-lo. Quando criança eu gastava longas horas na labuta de destruir formigas pelo prazer simples de abusar de minha crescente superioridade. Seria agora um pássaro; muito mais poético, de fato. A própria possibilidade que o poder absoluto de controle sobre a vida daquele animal tão esquivo me dava me fazia salivar. Salivar, de verdade. Eu poderia muito bem esmagá-lo, como se segurá-lo não bastasse, como se retê-lo em minhas mãos fosse um jogo erótico que só poderia culminar em um êxtase destrutivo. Quase um orgasmo; extremamente prazeroso, indiferente à moral, sujo ética e praticamente, calmante.


Alguém passou. Um tio, ou uma tia, não vi ao certo. Senti uma certa vergonha de meus pensamentos, mesmo que não tivesse sido de fato testemunhado por ninguém. A pura passagem de outro ser humano me alertava. Ainda tive um último pensamento sádico, a conjectura de que se me pegassem poderiam ser meus cúmplices. Como um flagrante sexual onde o vigilante eventualmente cede a participar do ato, seduzido. Entendi, por um segundo apenas, os depravados e psicopatas.

Mas ainda era um pássaro. Pequeno e adorável. E já estava começando a se acostumar comigo, se aninhava em minha palma, havia mesmo desistido de me bicar inocuamente e me examinava agora com a mesma precisão que havia sido examinado. Poderíamos bem ser amigos, sem qualquer dano ou posse. Ele poderia voltar e me visitar, espontaneamente. Ah, como eu seria feliz! Um pássaro! Ainda um pássaro, porém. A possibilidade de me frustrar com seu inevitável sumiço me tomou e me fez amaldiçoar minha condição humana. Nunca seríamos amigos, imagine só.


Soltei-o, sem qualquer aviso. Não o havia prendido, esmagado ou alimentado. Não havia criado vínculos, nem mesmo mostrei a ninguém o que eu fizera. Ele apenas voou desajeitado pelo céu, e eu me virei antes que pudesse ver para onde ele foi. Sentei na mesa com a minha avó e tomei um café devagar.

"Tudo bem filho? Você parece... assustado."


20060305::


Kipling escreveu toda sua obra em um posto britânico no meio da selva indiana. Deveriam haver muitos mosquitos, não apenas verdes, mas de todas as cores.

E tigres, meu deus do céu.
20060303::



É uma maldição, como o diabrete do Conumdrum of the Workshops de Rudyard Kipling. Este observa o Homem fazer todas as coisas belas e úteis e sussura, ao final: "É bonito, mas é Arte?".

Eu sou o Homem e o Diabrete, em questão. Confecciono vagarosamente palavras e frases que me saem doloridas, aperto os olhos contra o céu com força, tentando espremer pensamentos como suco de uma fruta. Tento fazer ciência, tento terminar meu projeto de pesquisa, ser alguma coisa na universidade, ingressar na academia e todas as coisas nobres e brilhantes da Humanidade, mas basta um inseto, um pequeno e simpático mosquito verde entrar pela minha janela e todo um dia de trabalho está terminado.

É agridoce a sensação de não acreditar em sua própria seriedade. Olho para o céu, para o prédio da universidade e para o mosquito, e consigo ver como tudo é belo e maravilhosamente simples, e desisto de vez da arrogância primeva de tentar refinar e redigir isso tudo. Mas me sinto mal, pois sem as Artes, a Ciência e a Filosofia, que há de fazer? Que há de ser feito? Então volto a escrever, penosamente.

O mosquito volta a entrar. Seu zumbido me irrita não pela freqüência do som, mas pela importância do sentido. Em meu ouvido ele sussura: "Parece bom, mas é relevante?"



Caeiro é a única saída

"(...)
E me aproximo das estrelas e das cousas distantes -
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-se."
20060302::



1-2-3 CONTATO!

homer|velharia|fotolosers

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