"Ela tinha as pontas dos seios brancas, quase da mesma cor da pele. Não não, era um cinza pálido, desgostoso, igual fruta passada. Eu sei porque seu decote solto deu uma pirueta safada e mostrou mais do que devia. Ela, obviamente, nem ligou."
Continuei a olhar para o RC na parede. Era isso, se a faculdade tinha me ensinado algo, era de que o corpo humano talvez não fosse tudo aquilo que eu imaginava. A vulgaridade, mais do que chocar, me entediava. Era um desespero, um desespero de mulher querendo algo, disseminado aqui e ali. Foi certamente biológico, algo me dizia que a ovulação ininterrupta não era bom sinal. "Não vai dar boa barriga não, meu filho, pula fora".
O contrário da existência é a insistência.
Um salto incrível, uma descoberta e tanto, realmente. É como se eu de repente começasse a aceitar as palavras de meu avô: "Allor, Gustavo, ti sei grande, tu, comme sei oggi, sei tu ognora". O que você é hoje, é você pra sempre. Aterrador, mas talvez o velho siciliano tivesse razão. Embora, è vero, exista ainda uma barreira.
Ainda vou conseguir provar pra aquele velho safado que eu mudei, e que vou mudar de novo ainda.
"A dissipação dos pilares fundamentais da religião cria um mosaico de "Islãs" e uma idéia coletiva da cultura árabe que beira o delírio em massa. Surpreendentemente, o esterótipo orientalista é hoje mais forte do que nos tempos coloniais. Fumar narghile hoje representa mais uma excentricidade do que um tributo aos poetas árabes. A contemplação lúdica e respeitosa do Oriente morreu junto com Baudelaire e seu ópio.
Mas a dissipação das idéias de Mohammed pelo mundo não aconteceu por acaso. Ocorreu junto com um movimento de emigração em massa nunca antes visto no mundo oriental. A instabilidade, as guerras e a desigualdade social aqueceram os corações de centenas de milhares de muçulmanos, que abandonaram suas terras quentes para os países da Europa e América. Funcionando como multiplicadores, estes modernos islâmicos pobres tornaram-se verdadeiros centros de iluminação e criação de convivência nos países onde se estabeleceram, criando comunidades e espalhando a Palavra do Profeta por entre não-crentes. A conversão foi (e é) inevitável e em massa; o islamismo é a religião que mais cresce no mundo. Isto porque a religião oriental funciona agora como o cristianismo (primeiro católico, depois protestante) funcionou em eras passadas, como código moral comum a pessoas de diversas nacionalidades e idéias, mas com a mesma classe social. Nos becos de Paris e nas prisões estadunidenses, a religião de Mohammed é, de fato, a Religião dos Excluídos. A ponta da cimitarra islâmica não está mais nos teocratas iranianos, talebans afegães e lordes do petróleo sauditas, mas nos jovens revoltosos de Clichy-sous-Bois e nos grupos políticos do Leste Europeu e além. O terrorismo clássico e piegas, de AK-47 em punhos, é só uma faceta da reviravolta dos excluídos do Oriente."