Mas afinal, tudo passa.
20051031::



Minha Vida Iluminada


Sai do cinema com cuidado. Não queria tocar em nada nem em ninguém.

Para mim havia a certeza de que a vida tem um valorzinho sim, mas bem pequeno. Lembrei do bosque fechado que eu visitei há tempos, do pequeno soldado de massa que encontrei enterrado nos arbustos. Parecia ter um milhão de anos. Lembro de tê-lo fitado durante horas, como se segurasse uma relíquia sagrada, como o prego da Cruz ou a Espada de Mohammed. Era sagrado, de fato, e me senti muito mais sábio depois de segurar aquele soldadinho.

Descobri que nosso legado aqui é o sagrado. E que cada cantinho de terra já foi tocado e sentido por milhões de pessoas, mas alguns, alguns lugares, algumas coisas, são únicos. Quer dizer, aquele soldadinho de massa. Com o uniformezinho vermelho, manchado, o chapéu quase-inglês preto com manchas verdes de mato. Mais do que pensar em quem o deixou ali (uma criança, um casal apaixonado, um velho solitário) pensei no que eu ia deixar ali. Pensei na morte, na morte mesmo, no fim-preto-que-depois-não-tem-mais-nada. Mas o que fazer?, pensei, forçando minha cabeça. Quase quebrei o soldadinho, sacrilégio.

Eu sei que eu sou eterno. Sei que quando eu morrer as partículas do meu corpo vão se desmanchar ao pouco na terra. Serei adubo para plantas, minhas cadeias de carbono formarão a alface, o coelho, a criança que come. Cada pequenina parte de mim integrará, respectivamente, um padre, um cantor de videokê, uma mesa de vime de praia, um passarinho pequeno de asas quebradas, e a ponta de chifre de um cachimbo. Haverá um pouco de mim em cada. E então, quando aqui acabar, e vai acabar, minhas pequeninas partes de mim se tornarão poeira de estrelas. Isso é eternidade.

Mas até lá, o que eu precisava mesmo era deixar um Soldadinho no Bosque.

d-_-b: Louis Armstrong - St. James Infirmary
Top Five de Músicas sobre a Morte.
20051030::



Voltei no ônibus ouvindo Arcade Fire. Pensava no fim de semana que estava passando, nas maluquices que tínhamos feito.

Senti uma coisa nova. Não sei se foi a bebida, mas no meio da chuva, enquanto pulávamos e cantávamos no jardim, eu lembrei do meu primeiro passeio de bicicleta. Nunca havia sentido isso, de encontrar uma lembrança que estava perdida. Achei, igual uma plantinha na cabeça, como se abrissem uma portinha lá dentro que me levava para o passado. Lembrei de cruzar a linha de trem com a bicicleta, tremendo de medo, com meu primo. Fiquei sorrindo igual bobo durante o resto da noite. Feliz de um jeito que há tempos não sentia.

Mas a menina linda que gravou o cd pra mim colocou a trilha sonora de "Closer", do Damien Rice no fim, e eu tive que andar com cuidado do ponto até minha casa para não pular a música. Continuei sorrindo, por tempos antes de dormir.


d-_-b: The Arcade Fire - Une Anée Sans Lumière
tem show hoje =)
20051023::


Sigur Rós me faz um MAL que não tá escrito.

Quer me matar lentamente? Põe Sigur Rós pra tocar. E eu não faço *idéia* do que eles falam, aquilo só me bate igual um soco no nariz. Fico caído igual bobo, olhando pro céu.

Esses dias eu chorei sozinho, esperando minha van, na porta da PUC. Ouvia o cd maldito. Chorei de soluçar, o tio da portaria ficou sem entender nada. Baita marmanjão desse chorando!
20051021::



Eu já te decepcionei?

Por favor, seja sincero. Em caso afirmativo, me ligue, meu telefone está no meu Orkut. Me envie um e-mail, pode ser o que tem no blog mesmo, lá no finzinho. Mande uma carta.

Porque eu ando tão entendiado com tanta gente, inclusive gente com a qual eu não deveria estar entediado, que desconfio que as pessoas sintam isso por mim também. Desconfio não, tenho certeza. Êêê mundinho.


d-_-b: Cooper Temple Cause - Way Out West



Ainda estou tentando me acostumar ao meu pai, o Pai 2.0, ou Pai versão Dr. Kurtz, como eu prefiro chamar.

O Dr. Kurtz Cilia some nas matas amazônicas durante um, dois meses. Antes ele briga comigo, faz questão de arranjar todas as picuinhas possíveis, faz da minha vida um inferno. Então ele vira o Caçador de Marfim, passa semanas com os índios na selva, visita o Acre, ganha fama e apelidos entre os silvícolas, sobe o Amazonas em um vapor velho e volta de Santarém em um DC-10 com antena de rádio de varal no teto. Diz-se que volta com as galinhas e os bodes, no compartimento de carga.

Traz fortuna e um sorriso selvagem na cara. A pele velha já não ostenta a morenice sóbria dos nossos antepassados mediterrâneos, do primeiros Cilias que navegam a costa da Sicília, Stromboli, Malta, mas sim a vermelhidão agressiva do Trópico Central, um róseo que chega a ficar púrpura em algumas partes. Ombros, testa e uma faixa horizontal sobre o nariz viram tatuagens ancestrais de tribos que culturam o Sol. Kurtz, afamado, enriquecido e manso, cheio de boas palavras para mim.

Eis sua maior herança para mim. Não o pai da infância, o pai-brinquedo, o pai-polícia, mas sim o Pai-Tupã, o Pai-Selvagem. O pai que se embrenha no Coração das Trevas para voltar manso, manso. Eis sua herança, para mim.


---


(ps.: acho que o post abaixo foi mais politicamente incorreto da história desse blog. jesus e maria aznar!)
20051020::



Mando um beijo para os corações em fúria, um abraço para os que causam, um alô para os pitis, barracos e fuzuês, todo meu apoio ao ato de rasgar a gazeta, vivas para os tapas na cara e berros, e aquele cumprimento amigo, não podia de jeito nenhum me esquecer, às mortais frases de efeito, meticulosamente ensaiadas em frente ao espelho.

Todo amor ao ódio!


d-_-b: Ian Paige - Prove It
20051019::



www.sitiodacajabraveiuda.blogspot.com


Já ouvi gente dizer que é a coisa mais criativa que já apareceu na Internet. Não é, só é... cajabrino.

Visitem. E tentem adivinhar quem sou eu...
20051013::



Depois de horas de discussão...

Besteira. Proibir o comércio de armas de fogo só vai dar mais poder ao Estado, que não tem condições de nos defender.
Não acredito que esta frase tenha algum sentido político. O Estado já tem o poder legal sobre a vida das pessoas; em sua forma constitucional, esse poder está restrito por regras, mas ele ainda tem o monopólio da violência legítima. De fato, pra mim parece mais aberrativo um Estado que permita ao seu cidadão ter uma ferramenta que entre diretamente em competição com ele pelo monopólio da violência.
É um direito que resistiu à formação do Estado, o de portar armas. Como bem disse Hobbes, "não vou deixar de trancar a minha porta porque o Estado diz me proteger".
Porque esse direito resistiu, especificamente? Pra mim isso tem a ver com defesa de comunidades. Penso na Itália do século XVII, com cidadãos portando armas para se defender de ameaças externas, que eram freqüentes na época. Penso no velho Fidel, que mantém rifles públicos nos Centros Regionais para que seus cidadãos possam usá-los em caso de invasão. Isso me parece bastante inteligente. Mas qual o papel da arma de fogo no Brasil? Quem porta? Quem são os chamados "cidadãos de bem"?
Bem, é preciso ter algum dinheiro para se portar uma arma legal, realmente. A própria arma custa algum dinheiro em uma loja de armas. Sem falar que uma arma na mão de um leigo faz pouca diferença; é inteligente investir em um curso de auto-defesa.
Certo, então os "cidadãos de bem" estão mais para "cidadãos de bens", certo?
Não somente. Portar arma é caro mas não abusivo. É certamente mais barato que possuir um carro. Penso que a maioria dos brasileiros poderia portar uma arma.
Não sei... Temos mais ou menos 20% de nossa população abaixo da linha de pobreza. Não há porte de arma legal para esses. Se portar arma é um direito, então é um direito de apenas uma parcela da população, não de todos. Os mais pobres têm que contar com a polícia, os mais ricos preferem contar com segurança particular. Me parece que é uma questão da classe média.
Sim, provavelmente.
De qualquer maneira, você não está errado quando diz que o Estado falha em proteger seus cidadãos. O Estado falha em muitas coisas. Você me diz que os anarquistas deveriam defender o ¿Não¿, mas olhe para o panorama social que contextualiza a discussão, não apenas a teoria política. É preciso enxergar para além do Estado, para as lacunas que ele deixa, organizar comunidades em torno da ajuda mútua e da possibilidade de suplantar esse ente fracassado nas áreas onde ele é débil. O povo precisa aprender a se virar...
Mas você está está sendo incoerente! Como um povo deve se organizar sem o Estado se você está defendendo a retirada de um poder que os cidadãos têm para resistir a ele? Como ser a favor de um Estado cheio de armas e um cidadão sem possibilidade de se defender?
Oras, mas eu não sou contra as armas. Não sou contra o cidadão ter armas.
Como assim? Qual o sentido de votar a favor da proibição então?
Veja bem, eu sou contra o Estado regulamentar as armas em seu território. Sou contra o controle estatal, a concessão de violência para os playboys em seus Golfs, para os velhos conservadores de classe média. Defendo a saída da hipocrisia, a constatação de que o Estado não só é falho em proteger, como para muitas comunidades o Estado é o agressor. Defendo que o cidadão porte armas ilegais.
Você quer dizer que prefere que um cidadão compre um fuzil de um traficante a possuir uma pistola legal? Essa é a paz que você quer?
Não sei se é uma questão de paz, realmente. Não acredito que a violência enfrente uma grande mudança com a proibição das armas. Estou fazendo uma análise de um outro ponto de vista, nem do lado colorido dos atores da Globo nem do lado fascistóide do Fleury. Peguemos a questão da terra, como um exemplo distante mas útil.
Que tem a terra?
Bem, a terra é um aspecto importante da hipocrisia do Estado. Veja bem, a propriedade privada é a base do Estado moderno capitalista. Sua defesa é feita com avidez, sendo alvo das primeiras e mais importantes leis. Invadir terra é algo ilegal e combatido, certo? Mas na prática...
Sim, existem grupos de invasão de terra organizados. Grupos como MST, que reagem à desigualdade social na questão da distribuição da renda e propriedade. São grupos ilegais, mas não são combatidos com tanta presteza pelo Estado por ter um certo valor social reconhecido.
Mais do que isso, são autoridades para-estatais. O MST, por exemplo, promove mudanças sociais nas terras que invade, monta escolas, moradias, admnistra colheitas, organiza o trabalho, etc. Tudo que o Estado não faz. Para milhares de pessoas, esses grupos representam uma vida mais digna. Mais do que isso, são faróis de autonomia, de anarquismo até.
Mas o que isso tem a ver com as armas?
Tem a ver com a questão do envolvimento do Estado. Consideremos que o Estado decidisse se organizar a acabar com as invasões, desta vez controlando rigidamente a distribuição de terras, comprando terras improdutivas para doar aos sem-terra, indenizando os antigos proprietários, etc. Ao invés dos grupos campesinos teríamos a grande aba doce do Estado, gerenciando tudo e todos. Em um Estado corrupto e ineficiente como o Brasil, isso significaria lentidão, favoritismos e politicagem. Os gastos seriam gigantescos, com indenização, com compras de terras improdutivas que não valeriam nada, etc. Os grupos autônomos campesinos com certeza fariam o trabalho melhor do que o Estado. A conclusão que temos disso é que, é melhor um Estado hipócrita, que defende a propriedade mas fecha os olhos para esses grupos para-estatais, que um Estado controlador, de grande escopo, ineficiente, que unificasse as esperanças dos sem-terra, orwelliano até. No primeiro caso as pessoas se organizam para se defenderem, no segundo elas esperam que o Estado interceda, na covardia típica do brasileiro.
Você quer dizer que, caso a proibição da venda de armas de fogo seja aprovada, os cidadãos se organizarão melhor para se defenderem? Mas isto vai contra qualquer lógica de Estado! Chega a ser anti-política essa posição!
Anti-política não, anti-estatal. E sim, vai contra qualquer lógica de Estado: entendeu porque seu ataque contra o anarquismo não faz muito sentido? As armas ficam mais autônomas sem o olhar social-democrata do Estado, comunidades podem se organizar para melhor utilizá-las. Favelas podem ser locais de grande autonomia perante o Estado, e um dos motivos para isso é o fato que seus habitantes possuem armas para se defender de ataques da polícia. E em muitos casos essas armas nem são compradas pelos cidadãos, e sim distribuídas pelos traficantes, mais ou menos naquele exemplo da Itália do século XVII.
Mas arma não é terra. As populações das favelas mais armadas enfrentam guerras com policiais regulamente; o Estado é muito mais repressor com portadores de armas do que com invasores de terra. De fato, se o MST distribuísse fuzis aos seus membros, o Exército já teria dizimado a organização inteira. Proibir a comercialização de armas de fogo provavelmente não irá diminuir o número de armas em uso por aí, mas certamente não vai aumentar. As populações carentes não vão se armar do dia para a noite quando se verem isoladas de proteção.
É impossível prever com exatidão o que vai acontecer. Sei que, para essas populações carentes, no mínimo não fará diferença a proibição. Mas o crescimento do comércio ilegal pode aumentar a concorrência e fazer os preços cairem. Se um Kalashnikov custava R$300 antigamente, com a concorrência ele deve valer $200...
Ou R$1000! Artigos ilegais costumam custar mais caro, e não mais barato!
Mas uma AK sempre foi ilegal. A diferença é que a procura por armas ilegais com certeza vai aumentar com a proibição, e o número de traficantes de armas também deve aumentar. Com essa concorrência, o preço pode cair. Você sabia que a maconha na Holanda custa 20 vezes mais do que no Brasil? 20 vezes! E isso não tem só a ver com o custo de vida naquele país: artigos como esse são alvos de impostos pesados do governo, o que deixa a maconha ilegal muito mais barata. Software ilegal é mais caro do que o legal? Aparelhos de som contrabandeados? CDs piratas? Eu acho que não...
De qualquer maneira, não posso concordar com seu projeto de sociedade. Você quer uma sociedade fragmentada, separada, conflituosa. Não quer a resolução conjunta dos problemas, quer um caleidoscópio caótico de desigualdade. Seu projeto é o não-projeto, é a desordem, a cizânia. Pior, você calcula seus meios, quer um Estado hipócrita, que afirme combater as armas mas as tolera, você quer o crime, a feudalização dos pobres, as fortalezas, a guerra. Você não tem qualquer compromisso com o bem-estar das pessoas...
(suspiro) Enfim...


d-_-b: Cat Power - You Are Free

20051012::



1-2-3 CONTATO!

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