Eu não deixei de ver os demônios que correm à nossa soleira, as bestas que uma vez me chamaram para sua fuzarca. Eu não sou indiferente à orgia que acontece a alguns metros de minha caverna, não sou ainda (e já) pacífico.
Mas no entanto, e se eu acendo meu fumo e murmuro em swahili "Songasonga, mathe, songasonga", há algo de ancestral em mim que eu não deixo ser levado, ainda existem bases para o que eu sou, o que eu sou de ontem, não o que eu sou de hoje. É nesse budismo pós-moderno que eu vivo agora, nesse desprendimento de tantos mundos que, se um dia já me foram fascinantes, hoje me poluem. Os outros mundos são meu maior trunfo, a possibilidade de percorrê-los como um silvo infante, a sempre promessa de liberade irrestrita em uma outra porta. Mas, recentemente, eles parecem ter sido invadidos. Como se cada ilha de utopia estivesse sitiada por pessoas de outros mundos, estáticos, irritantes. Assim, eu fiquei.
É um lago congelado, eu sei. Sei que a placidez branca de minha alma, iluminada pela fumaça almiscarada de meu retiro, tampa com dificuldade o mar violento. Ainda sou violento. Mas haveria de ter um inverno: haveria de guardar a juventude de borracha e correntes em algum lugar, por um tempo. Sempre as correntes, sempre elas em minha vida.
Mas agora eu as deixo girarem na água que corre abaixo. Aqui, estou completo. Pelo menos até o degelo.
Quando cheguei, me pus a vasculhar minhas coisas novamente. Não procurei muito; sou uma pessoa que joga pouco fora e minhas gavetas são tumbas sagradas que contém mortos irrequietos. Um simples objeto encontrado em uma má hora, uma recordação boa demais, ou ruim demais, e minha noite estaria arruinada ali, jogado naquele chão de madeira frio, soluçando.
Acabei encontrado meu velho exemplar de As Ondas. Sujo, com as páginas retorcidas por conta de chá derrubado. Meus temores iniciais acabaram por se concretizar. Minha noite acabara ali.
As Ondas é um livro pouco lido de Virginia Woolf, apesar de ser considerado pela crítica sua obra prima. Encontrei-o fazendo a mesma peregrinação de vasculhar antigos armários, dessa vez na casa do meu pai. Estava empoeirado e parecia nunca ter sido lido, então peguei. Tinha 16 anos, e mudou minha vida.
Não existe história. O livro é um grande monólogo de seis personagens que lembram de sua vida, pouco se relacionam. É um grande tratado de solidão, um livro denso, angustiante. Bem menos acessível do que Mrs. Dalloway, por exemplo. Acabou por contar muito de mim, naquela idade de desespero e lâminas sujas, de noites embriagadas.
Folheei de novo. Parei, não conseguia ler mais. A maioria das páginas ainda tinha marcas de lágrimas; devo ter levado mais de um ano para ler as 200 e poucas páginas.
Olhei em volta. Só havia eu no quarto. Me senti assim, como se sempre houvesse apenas eu no quarto. Por isso não importa o quão pequeno fosse o cômodo, era sempre grande demais para mim. Só eu no quarto. bianezzi::3:53 AM
Choveu deliciosamente durante a noite toda.
Acordei pensando em New Orleans. Pensei nos peitinhos de fora enlameados, nos pierrots se afogando e dando risada, cambalhotando e amaldiçoando em perfeito cajun, nos pretos pobres segurandos seus chapéus, tentando tirar um último acorde do saxofone engasgado de água suja do bayou, nos carros de Mardi Gras servindo como a derradeira ilha de uma família de gordas senhoras de camisolas.