Havia um rapaz que dividia sonhos comigo, todos os dias, voltando da escola. Parece que, cada vez mais, compartilhamos sonhos semelhantes.
(e o bom é que não ficamos gordos! bem, não excessivamente...)
De qualquer maneira, ele é leitor do blog, então vou ter a liberdade de copiar o testimonial que eu deixei pra ele no orkut aqui:
Não sei, parece querer dizer algo com os olhos. Sei que ele anda por aí. Desde que o conheci ele tem andado por aí, se é que me entende. Mas não sei muito além disso. Não nos entenda mal: nos entendemos bem. Mas às vezes seu mau-humor de gentleman envelhecido quer me dizer algo mais. É como jogar sinuca com um garoto de mil anos.
Quando eu pensava que um sonho era só um doce de creme que custava R$1,50 pago com dinheiro eternamente emprestado do ponto de ônibus, a vida nos mostrou que ele pode ser algo muito maior e menos agradável. E acabou nos ultrapassando. A nós e a nossos poemas bobos e desesperadamente sinceros.
Então ele começa a rir olhando para cima, os olhos fechados, a mão na barriga. E eu compreendo-o perfeitamente.
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Amanhã parto para o Rio de Janeiro. Gosto do Rio. Atrás da babaquice bossa-novista existe sim uma cidade simpática. De qualquer maneira, foi o máximo que eu consegui me afastar de uma viagem de consolação.
d-_-b: I Am Kloot - From Your Favorite gosto da agressividade com a qual ele ofende o outro chamando-o de "you delicate flower!"
Ainda há tempo para desculpas, acho. Ainda há tempo para observar um ser humano e vê-lo por isso, apenas um ser humano, um amontoado de células gorfando humores e enzimas, visivelmente inseguro em sua condição proto-societal.
Mas eu não aprendo. Continuo a procurar os deuses, aqueles que inspiram, que se sobressaem, aqueles que me pegam pelo braço e me levam para algum lugar que valha a pena. Eu mesmo procuro me tornar um. É impossível imaginar que estes sejam iguais aos primeiros, covardes e reclamões. Mas são, aparentemente. Ou nossos deuses são quebrados, criaturas gigantes com fraquezas específicas porém avassaladoras, herdeiros de um superego aberrativo, inflado. No fim, apenas humanos. Porém, não é porque um covarde disfarçado de deus entrou na minha vida que eu devo renunciá-los.
Ainda há tempo para desculpas. Porém as deixo com os humanos. Eu continuo atrás dos deuses.
E aquilo acabou ficando. A palavra, a acusação. Lembrei de Hamlet: "A consciência acaba por fazer de todos nós covardes".
Outra coisa acabou ficando também. Eu. E minha consciência. E minhas pajelanças.
Quer dizer, o que acontece com o garoto da tribo que perde seu ritual? Vira adulto? Não pode. Continua criança? Também não pode. É como aqueles meninos de 16 anos em salas da 4ª série, morosamente repetindo de ano. É um limbo.
Eu acho que sou um menino de 16 anos em uma sala da 4ª série. Thaumazein! A indiferença ainda me é querida, o cinismo desfila riachos de gargalhadas. A novidade é que agora eu gargalho sozinho no meu quarto: sou suficientemente engraçado, obrigado. Não deixa de haver uma certa independência nisso tudo... Fiquem com suas aventuras medíocres. Passo bem com minha mediocridade aventureira.
Mas o Estado aprova automaticamente hoje em dia. As sendas escolares me libertam, seus corredores verde-hospital são minha casa! Venham me visitar!, fico na sala 309, quando a 308 está em reformas, ou quando o giz da 310 me dá coceiras. Vou de bicicleta. Minhas crianças me adoram, sou o menino que eles admiram, sou quem dá cigarros a eles, quem compra cervejas na padaria, sou querido! Avante!
Avante! O progresso ganhou mais uma! As ciências (as ciências, deus meu?) deixaram a Poesia no chinelo. Foi tudo desenhado e planejado. Minha faculdade querida me dará o saber, a constância. Ah como sonho com a constância! Meus sonhos todos engavetados e etiquetados; eis a constância! Que? Freud explica? O que é reprimido volta em dobro? Serei um Hemingway da pedagogia, um sucesso da educação com a espingarda? Viva! Regozijo: ainda me restam forças para regozijar. Eu e meu coelho de mel.
Afinal, uma vida é apenas uma vida, e aquele regato frio na Serra Gaúcha vai continuar, independente de mim. Ah, o existencialismo zen. Preciso me drogar.