Domingo, Março 13, 2005
"Gosto de você porque gosto. Não tem explicação."

Não acreditei. Não porque exista uma explicação, mas por algum outro motivo que desconheço. Como um Fausto às avessas, olho para tudo o que destruí e não sinto a explicação de um Amor que exista no mundo por mim. Como ele, dominei as Ciências e as Artes, mas as arranquei de dentro de mim. Não preciso de mais nada hoje. Ainda assim, ela me ama. Contra todas as probabilidades, ela me ama.

Talvez seja infantilidade minha. Eu fico assim porque ela beija outros homens. Outros homens a beijam. Talvez eu fique assim porque sinta que ela não precisa de mim. Talvez eu preciso de alguém que precise de mim; mais do que isso, que sofra por mim. Que tenha por mim pesadelos, que dedique sua vida a me cultuar em silêncio até a morte inevitável. Talvez eu tenha lido Álvares de Azevedo demais na minha adolescência.

"Posso falar porquê gosto de você sim. Mas levaria tempo. Posso discorrer sobre as inúmeras coisas que gosto em você, se você quiser."

Minha masturbação prostituída. Fale como sou grande, como sou poderoso. "Diga a ele o que ele quer ouvir e deixe-o", sussura o diabrete em meu ouvido. Minha narrativa romântica certamente não foi escrita por Goethe: não há negociação com o diabo, não há uma mulher maravilhosa que eu possa conquistar. Preciso de uma mulher maravilhosa, dessas de beleza fácil e notável pelos mediocres, preciso conquistá-la, arrancá-la de seu trono de felicidade e beleza fantásticas e sugá-la para meu abismo ególatra. Preciso, como o referido, domar o Amor, não senti-lo, mas destrui-lo. "Só quero destruir algo belo", reza Tyler.



Volto pedalando rápido. O esgotamento físico é a saída para meus problemas. Em alguma tribo esquecida de um lugar esquecido, os jovens realizavam feitos físicos imensos para marcar sua passagem para o mundo adulto. Como em Forrest Gump, às vezes um homem precisa deixar tudo para trás para começar a fazer algo de novo. E o Alabama não difere muito do Rio Grande do Sul, pelo menos em simbologia mitológica. Assim, algo grande e perigoso precisa ser enfrentado para que haja uma certa felicidade, algo que não ofereça segurança alguma, nenhuma estabilidade, nem mesmo a certeza de que estarei vivo nos próximos minutos. Sobra pouco sentido nas preocupações do ego quando não se tem certeza de que você vai comer algo esta noite, ou se haverá abrigo contra a chuva.

Enquanto esse rito não chega, continuo pegando meu trem todos os dias às 7:35, descendo na belíssima estação da Móoca, realizando meu utilíssimo trabalho de checar as Notas Ficais n°18001 a 19001, ganhando meu merecido dinheiro que no fim do mês me permitirá comprar as coisas que eu preciso para ser feliz. Março, Abril, Maio, Junho, Julho. Até lá ela naturalmente terá me esquecido, não por desligamento, mas por inércia. E eu terei menos cabelo, mas ainda serei eu.

Insuportável eu.