Segunda-feira, Janeiro 31, 2005
Trailblazing.

Entro em casa como um djinn enlouquecido invocado por berberes incautos do al-Hamrã. Na minha cara um olhar de fogo e tempestade, tudo silencia.

Gargalho alto no meu quarto, ouço músicas estranhas no último volume, cantando. Gosto de cantar hinos fascistas, nazistas e comunistas quando chego. Io ti saludo, vado in Abissina. Destruo coisas, com todo o cuidado e requinte de tomar de mim mesmo o que me há de mais caro: pouco a pouco somem bilhetes, cartas, lembranças. Há que se apagar, e tudo vai pro lixo em um turbilhão. Freqüentemente esqueço que joguei fora tal coisa.

Minha mãe se assusta. Seus olhos são de um animal em frente a um carro em alta velocidade: eu, modelo F-50, Discovery, Columbia, Challenger, arremessando meu corpo a milhares de milhões de potências e quilômetros por hora, para explodir em mil pedaços no céu. A bordo, Flash Gordon. Sento-me a mesa, como. Ela já nem pergunta "o que foi?", tem medo. Minha refeição é rápida, às vezes modesta como deve ser, às vezes esbaldante. Mas como rápido.

Volto. Dedilho alguma coisa: estudo. Tento descobrir o que há de mais (diz aí, o que há de mais?), e por vários instantes sou a medula inflamada de Jack, sou Fausto e Frankenstein, fazendo acordos com um diabo safado que se instalou na minha escoliose cérvica e não sai mais. Trailblazing. Não tem mais volta mesmo.

Vou dormir às 2 da manhã e acordo às 6. Isso me faz especial, isso me faz ver coisas especiais. Vou dirigindo para o trabalho: vejo Dorothy a voar pela janela, e a Bruxa do Leste a persegui-la. Sou a Bruxa do Leste, perseguindo os carros na Av. Presidente Wilson, Móoca, São Paulo-SP às 7:38 da manhã de uma segunda-feira qualquer, de um dia de fechamento, notas fiscais 13000 a 14000, verbas promocionais altas demais, bonificações (em produto ou $$?), entregas fretes logística. Admnistração de pessoa. "Você não sorri porque seu dia está bom, você sorri porque este é seu trabalho".

Conseguiram, concretizaram o tumor. Não não, antes era apenas um vírus. Revolta boba, espinhas, Nirvana, Sex Pistols. Agora ficou sério. Agora é 190km/h, contas bancárias no vermelho (sem se lembrar no que gastou), crimes, xingamentos, borderline, trailblazing, al-ansar al-islam.



Páro um minuto em frente ao computador sujo do depósito. Tomo água. Tomo água de novo. Mais água. No quarto copo começo a delirar, ligo o piloto-automático, dirijo um camelo F-15 armado com cimitarras teleguiadas, sinto claramente as ondulações das dunas do Tènèrè, "Tangier, aqui vou eu". Pedalo um cavalo de notas fiscais, arremetendo contra um moinho de vento de água mineral, Sancho Pança ao meu lado. Já estive em Ceuta, em todos os meus sonhos, ao lado de Sancho Pança.


Uma temporada no inferno, por favor. Com gelo.


Domingo, Janeiro 30, 2005
Peguei a bicicleta e sai pra andar hoje. O caminho: todos os lugares que tinham a ver comigo até antes de começar a fazer faculdade/trabalhar. A escola onde passei os melhores anos da minha vida. A escola onde passei os piores. As casas de minhas avós. Casas de ex-namoradas. Lugares de show punk.

Tudo parecia diferente, inexistente. Na casa de shows, um skinhead sentava ao chão. Cabeça raspada, coturno, suspensório. Mas não parecia ameaçador como os da minha época. Tinha espinhas na cara, sorria: era uma criança. Na casa da minha avó tudo silêncio. Um cachorro estranho latia de dentro do portão. Latia pra mim. As ex-namoradas (todas com seus namorados atuais) fora de casa, é domingo, dia de sair, ser feliz. A cidade vazia.

Era eu. Não o mundo: eu. Marco Polo em alguma cidade invisível do Levante.



Não me encontrei em lugar algum destes. Estou em uma crise de meia idade, aos 20 anos. Precisa ser sanada. É o fim, o niilismo total, o pós-modernismo, a putaria, a indiferença, o sorriso.escárnio.no.meio.da.noite.o.choro.sem.sentido. Nada anda fazendo sentido.




Modo Tyler Durden ativado. Esse apartamento vai explodir em 9... 8... 7... 6....... .... ...






(meia idade aos 20? isso significa que vou morrer aos 40?)


Quarta-feira, Janeiro 12, 2005
Chego pela manhã, normalmente meia-hora antes do expediente começar. 7:30. Havia acordado às 6.

Me espreguiço gostoso na cadeira, olho o escritório vazio. Tudo escuro e vazio. É geralmente aí que me vêm os pensamentos mais malucos: fugir em uma nave para Alfa do Centauro, fundar uma nova religião. O escritório é fechado, abafado. De manhã o banheiro cheira mal. Os caminhões do depósito já começaram a rosnar, as notas fiscais me esperam sobre a mesa.

Surpreendentemente não tenho sono. Escrevo e-mails, leio um pouco. "O que você tanto lê, rapaz?". Nada demais. Tudo demais na verdade: este vai ser meu único lazer por 12 horas, e mesmo assim só quando dá tempo.

As pessoas chegam. Fecho o livro, dou bom dia. "Bom dia". "Bom dia". "Bom dia". Cumprimentos. "Você terminou isso ontem?". Não, vou terminar. Começa.


Terça-feira, Janeiro 11, 2005
Gutinho voltando do trabalho.
(gutinho está trabalhando e morrendo. vai cair fora logo)

Gutinho tem o dia mais estressante do trabalho.
(chefe cobrando, sem horário de almoço, tabelas e notas atrasadas)

Gutinho pega um engarrafamento monstro.
(carros buzinando e se batendo, pessoas gritando. inferno)

Gutinho lembra das vítimas no tsunami asiático.
(enquanto a áqua da enchente começa a invadir o carro. pessoas sobem nos veículos, helicópteros. ilha)

Gutinho fica 2 horas e meia em uma enxurrada.
(sentindo seu carro lentamente ser carregado)

Gutinho desiste.
(pessoas do ônibus da frente descem e tomam chuva cantando e dançando sassaânicamente. a chuva pára. no céu um arco-íris. que brega!)

Trânsito anda. Gutinho feliz. Vamos pra casa!
(o carro do gutinho acaba a gasolina. o menino fica no meio da rua com lama até as canelas, tomando chuva, com cara de boboca)



é.
ainda perdedor.